quinta-feira, 14 de março de 2013

Canudos: a invenção do medo



“Quem ouvir e não aprender
Quem souber e não ensinar
No dia do juízo
A sua alma penará”
A guerra de Canudos não foi apenas um “refluxo em nossa história”, mas também o confronto entre dois Brasis. O Brasil real, miserável e esquecido do sertanejo e o Brasil da República Velha: mentiroso, falso, superficial, da grande propriedade fundiária, que a principio se estanca no Tenentismo dos anos 20, na Semana de Arte de 22 e na Revolução de 30.
Em 1894, jagunços de Canudos espalhavam o terror por algumas cidades do sertão da Bahia, gerando calorosa e inútil discussão na Assembléia Estadual. O arraial já era conhecido pela reunião de crentes, de fanáticos e pela malta de facínoras e valentões. Então, por que era permitida a sua existência pelas autoridades governamentais? Aquela gente inculta e miserável, perdida e esquecida no fim do mundo, estava no seu devido lugar. Bem longe da civilização; bem perto da barbárie.
Canudos, velha fazenda de gado à beira do rio Vasa Barris, era em 1890 uma aldeia de cerca de cinquenta casas mal construídas e arruinadas.  Em 1876, se aglomeravam ao redor da fazenda, ainda florescente, uma malta suspeita e ociosa, “armada até os dentes”. Gente que se ocupava quase exclusivamente em beber aguardente e fumar cachimbo em canudos de metro de extensão de tubos fornecidos por uma planta que abundava na região.
O Conselheiro chegou a Canudos em 1893, encontrando o rancho em abandono, a antiga casa grande em ruínas e a Igreja Velha ainda de pé. Antônio Conselheiro não era um incompreendido, “a multidão o aclamava como representante natural das suas aspirações mais altas”. Tinha na atitude, na palavra e no gesto: a tranquilidade, a altivez e a resignação soberana de um apóstolo. Dizia àquela gente o que ela precisava e gostava de ouvir. Falava da seca, da miséria, dos meses de fome, das epidemias e dos maus políticos.
Naqueles sertões desertos
De esquisitos carrascais
Multidões embevecidas
Ouviram sermões de paz
Do maior dos conselheiros.
Isso para os fazendeiros
Era incômodo demais.
Dentro de algumas semanas de 1893, a aldeia velha dava lugar a um novo povoado, cujas ruas eram mal projetadas e em forma de labirinto. As casas eram de pau-a-pique e mal feitas, já nasciam velhas e feias. No começo, se reuniam perto da velha igreja, depois outras construções mais ligeiras surgiram. “Pareciam obedecer ao traçado de um plano de defesa”. O povoado havia sido construído com esquemas de trincheiras por todos os lados, às vezes, fazendo parecer ao viajante desavisado um inofensivo rancho, no qual o inimigo podia cercá-lo, golpeando todas as entradas com uma bateria única. Pura ilusão. Canudos tinha condições táticas de defesa preestabelecidas. “A Tróia de Taipa” se trancava a leste pelas colinas, a oeste e norte pelas ladeiras das terras mais altas e ao sul pelas montanhas. O povo da cidadela não se escondia de eventuais assaltos de cavaleiros, ficavam entocados à espera.
A natureza ao redor de Canudos era um contraste. Era feia e morta, de paisagem triste; porém abundavam os caminhos: Uauá, Caipã, Jeremoabo, Cocorobó, Cambaio, Calumbi e Rosário. A caatinga - juazeiro, favela, mandacaru, baraúna, xiquexique, cabeça-de-frade, quipá, caatanduva, mulungu, caraíba, quixabeira, icózeiro, ouricuri, jurema, umbuzeiro – agride e espanta com suas folhas que queimam e espinhos que ferem. Árvores sem folhas de galhos torcidos e secos que se entrecruzam. O sol ardente impera, castiga e extingue.
O povoado de Canudos ficava ao fundo dos sertões do Piauí, Ceará, Pernambuco e Sergipe. Sertão de verões calcinados, invernos torrenciais e ribeirões que só se enchem nas épocas de chuva. Na estação das secas, se intercalam dias muito quentes e noites frias. Por longos meses de intenso calor à terra é negada a umidade  minguada do ambiente queimado. A flora é deprimente, o solo gretado e duro reflete em todos os sentidos a luz do sol. No mês de março, sem crepúsculo, os dias são mais curtos. O céu se cobre de nuvens. Ventos agitam as folhagens. Troveja; chove forte, e floresce a caatinga.
A Terra da Promissão
por Deus ali prometida,
pregava em cada oração
garantia para a vida.

Que tipo de gente vivia em Canudos?
Havia mulheres beatas; solteiras, que no sertão tem o pior dos significados, soltas, sem freio; moças donzelas ou moças damas e honestas mães de família. De todas as idades, todos os tipos, todas as raças: negras, caboclas, mamelucas, cafuzas, loiras e brancas. Todas vestidas o mais simples possível, da maneira que exigia o Conselheiro. O contraste era ainda maior entre os homens: jagunços, vaqueiros rudes, desocupados, ex-escravos, escravos, pequenos proprietários, expulsos pelos coronéis, índios e os lugar tenentes do Conselheiro: José Venâncio, o terror de Volta Grande, Pajeú, a suçuarana em noite de luar, Lalau, os irmãos Chiquinho e João da Mota, perseguidores de soldados, Pedrão, o cafuzo; Estevão o negro, João Tranca-Pés, Raimundo Boca-Torta, o ágil Chico Ema, o valente Norberto, o vitorioso Quimquim de Coiqui, Antônio Fogueteiro do Pau-Ferro, Vila Nova, o Velho Macambúa, exímio planejador de tocaias, João Abade, o comandante de rua, Antônio Beato, sacristão e soldado, José Felix, o Taramela, guarda das igrejas, chaveiro e mordomo do Conselheiro. Todos carregavam bacamartes, garruchas, espingardas, pistolas, facões e porretes. O Arraial do Bom Jesus do Belo Monte chegou a ter cerca de 30 mil habitantes.
A Bahia foi um palco,
De dor e desespero
A cidade de Canudos
viveu toda essa cena,
De homens livres e progresso,
Mas inquietou o Império,
A República viu algo sério
“Quem tiver perna que corra. Quem quiser ficar que fique...”
Antônio Conselheiro prega a desobediência civil contra a República. Queima tábuas de editais cobrando novos impostos. Nas suas andanças pelo sertão, o Conselheiro denuncia à seca, o casamento civil e os novos pesos e medidas.
O Conselheiro interpretava
A Bíblia à sua maneira
Não obedecia a bispo,
Nem a padre nem a freira
Se ainda tivesse a mão
De tal Santa Inquisição
Seu destino era a fogueira.
Em 1896, madeiras compradas pelo Conselheiro, mas não entregues por determinação e precipitação de um juiz, fizeram com que o ermitão determinasse a sua retirada do depósito pela força. Canudos virou uma ameaça. Então, seguiram-se pedidos de providências ao governador do estado da Bahia.
Pela sua rebeldia
foi Canudos atacado
Alheio as leis da Bahia
havia imposto negado.
A República brasileira contra Canudo
A primeira expedição chegou a Juazeiro no dia 7 de novembro de 1896. A primeira vitória de Canudos foi sobre a polícia baiana, que possuía um efetivo de 107 homens: três oficiais e cento e quatro praças, comandados pelo tenente Manuel da Silva Pires Ferreira. Os soldados estavam despreparados para as andanças no sertão, de altíssimas temperaturas, em uma das regiões mais assoladas pela seca.
Foi em novembro do ano
Dezoito e noventa e seis
Do outro século passado
Que pela primeira vez
Canudos foi atacado
No dia 7 do mês.
A segunda expedição foi comandada pelo major Febronio de Brito. Levava 543 praças, 14 oficiais, 4 metralhadoras e 2 canhões.  Mais de 300 soldados fugiram e quase 200 morreram no confronto com os sertanejos
Deu-se o segundo combate
Dia 12 de janeiro
Do outro ano seguinte
Que vou contar prazenteiro
Dezoito noventa e sete
Ano infeliz agoureiro.
A terceira expedição contra Canudos foi comandada pelo coronel Moreira César, o Corta-Cabeças. Partiu do Rio de Janeiro, no dia 3 de fevereiro de 1897, possuía quase 1300 combatentes com quinze milhões de cartuchos e artilharia pesada.
No ano de noventa e sete.
Muita coisa aconteceu
Pegou a guerra em Canudos
Moreira César morreu.
Antes de vencer o sertanejo, o sertão deveria ser vencido. Não se estava diante de uma guerra comum, mas sim de uma guerra de guerrilha, em lugares pedregosos, de subidas e descidas, em um terreno desconhecido pelos exércitos regulares, vestidos com roupas inadequadas e pesados equipamentos de guerra. Jagunços escondidos e ocultos vigiavam e aguardavam para atacar, em uma das regiões mais secas do nordeste, onde as táticas militares clássicas deram lugar ao conhecimento do terreno, do deserto e do inesperado
O último suspiro
A quarta expedição, de 16 de junho a 5 de outubro de 1897, foi comandada pelo general Artur Oscar. Possuía seis brigadas e foi dividida em duas colunas: uma comandada pelo general João Barbosa, com 2.340 homens, outra pelo general Amaral Savaget, com 3.415 homens; o 5º corpo da policia baiana, formado, também, por 388 jagunços, além de doze canhões Krupp, um canhão Withworth, “a Matadeira” e cinco navios da Marinha brasileira.
Jagunços fracos, cansados
em seus momentos fatais,
acabaram massacrados

pelas tropas federais.
Antônio Conselheiro faleceu a 22 de setembro de 1897, possivelmente por ferimentos causados por estilhaços de granada. Os soldados, que invadiram Canudos, acharam enterrado o corpo do Conselheiro, profanaram sua tumba e separaram a cabeça do corpo.
Sendo exumado o beato.
Teve a cabeça cortada
A vitória foi de fato
finalmente confirmada.
O triste fim agonizante de Canudos foi à busca de água. Principalmente sobre as barrancas do Vasa Barris, entre saraivadas de balas do exército sitiante. Os sertanejos, que estavam sedentos, avançavam e caíam, às vezes, um após outro, todos. Quando a água acabou, bebia-se de tudo, até urina e tudo aquilo que se podia chupar. Bebia-se sangue de pássaros ainda que fossem urubus, mastigava-se: folhas, talos e raízes. Tudo o que tivesse suco. A sede matou mais que as balas. Não se ouvia mais os canhões. Agora havia sede; fome, feridos e mortos.
O arraial pegava fogo. Não tinha mais o aspecto da “Canaã Sagrada” de antes. Tudo era incêndio. Eram milhares e milhares de soldados que se precipitavam dos morros, com fuzis e baionetas, entre fumaças e escombros pelos caminhos estreitos e sinuosos da antiga cidadela arruinada, queimada e devastada. Os prisioneiros, aqueles que não foram fuzilados e degolados, eram crianças de 4 a 8 anos, algumas mulheres e lutadores feridos. Todos foram vendidos como escravos para os fazendeiros da região, nove anos depois de terminada a escravidão.
Soldados do Exército brasileiro, quando entraram em Canudos, queriam encontrar papéis que comprometessem e revelassem as verdadeiras intenções monárquicas conservadoras do Conselheiro, porém dentro dos casebres destruídos não havia nada de comprometedor, apenas papéis “que não valiam nada e valiam tudo”. Eram prédicas inofensivas do Conselheiro, que não reconhecia a República.
Saiu Dom Pedro segundo
Para o reino de Lisboa
Acabou-se  a Monarquia
O Brasil ficou à toa!‘
“O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”
Canudos caiu no dia 5 de outubro de 1897. No dia 6, acabaram de destruir as últimas casas, 5.200. Contra Canudos e sua gente, o exército brasileiro usou mais de 10 mil soldados (na Primeira Guerra Mundial, o efetivo do Exército foi de mais ou menos 1.610 homens; na Segunda Guerra, de 25.334) de 17 estados, divididos em quatro expedições. Na guerra, morreram mais ou menos 25 mil pessoas.
Há algo muito claro na Guerra de Canudos, a população de Canudos e de  outras regiões do Brasil foram enganadas e manipuladas pelos políticos da Bahia e do Governo Federal, ficaram no centro da disputa entre Conservadores e Liberais. A Guerra de Canudos é um enigma na história do Brasil. Episódio obscuro e mal resolvido. Depois de quatro expedições do Exercito Brasileiro contra Canudos, o Arraial foi destruído pelo fogo e apagado do mapa pelas águas do açude de Cocorobó.
“Mas quando a terra diz: “Ele não morre”
Responde o desgraçado: “Eu não vivi!...”
(Castro Alves)


Bibliografia
Llosa, Mario Vargas. La Guerra del Fin del Mundo. Fundación Biblioteca Ayacucho. 1991. Caracas – Venezuela.
Cunha, Euclides da -1866 – 1909. Os Sertões. Seleção, introdução e vocabulário Olimpio de Souza Andrade. Edições de Ouro. Rio de Janeiro.
Canudos: Cartas para o Barão/Consuelo Novais Sampaio (organizadora) – 2ª ed. 2001 São Paulo: Ed da Universidade de São Paulo: Imprensa Oficial do Estado.
Romero, Silvio. Estudos sobre a poesia popular do Brasil. 2. Ed. Petrópolis, 1997, pag. 41
Web:
www.projetociclovida.blogspot.com.br
Canudos na literatura de cordel –josecalasans.com
Ruth Farah Nacif Lutterback – Cordel. O Fim de Canudos – 100 anos sem Euclides- Projeto Cultural
(PDF) O Estado e a inerência da violência: A República Brasileira contra Canudos. www.faceq.edu.br

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Cem Anos de Solidão entre o real e o imaginário


“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de lembrar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e cana-brava construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos”.

No seu extraordinário romance, Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez cria um mundo imaginário, utópico e mítico entre o real e o fantástico, em um povoado chamado Macondo desde sua fundação até sua destruição. Cem Anos de Solidão pode ser a história em sete gerações de uma família marcada pela solidão e pela fatalidade do seu destino. A saga da família dos Buendía será a repetição da tragédia dos anteriores, e também o tempo mítico de um povoado imaginário chamado Macondo onde cem anos reúne centenas de séculos.
Na primeira leitura do romance temos quatro etapas: a primeira etapa corresponde à fundação de Macondo; a segunda às guerras de independência; a terceira à intenção do capital estrangeiro nas plantações de banana; a quarta à revolução e as guerras civis. Em todas essas etapas o tempo histórico é cronológico e linear com a história de Macondo e da família Buendía contada por um autor-narrador, em outra dimensão temporal, contando fatos já ocorridos.
Na segunda leitura do romance, o tempo histórico e linear se alterna na narrativa com o tempo mítico, cíclico e renovável. Existe em Cem Anos de Solidão uma tensão entre a Utopia de fundação, a Epopéia destruidora e a imaginação mítica que relembra e recobra o tempo presente, simultâneo e eterno do mito.
A Utopia, U-topos lugar que não existe, é a representação inocente, sonho e desejo. Macondo como povoado imaginário e imaginado, terra inventada e desejada, a idade de ouro. José Arcádio Buendía e sua família peregrinaram pela selva, dando voltas até encontrar precisamente o lugar onde fundar a nova Arcádia, a terra prometida das origens e representação da inocência: “O mundo era tão recente, que muitas coisas careciam de nome, e para mencioná-las havia de assinalá-las como o dedo”.
A Epopéia, sonho negado pela necessidade histórica, começa quando José Arcádio Buendía abandona a adivinhação pela ciência, ao passar do conhecimento sagrado ao exercício hipotético, abre as portas à segunda parte do romance. A Epopéia é o transcurso no qual a fundação utópica de Macondo é negada pela necessidade ativa da história e do tempo cronológico.
“O Mito é sempre uma representação coletiva, transmitida através de várias gerações e que relata uma explicação do mundo”. O mito é uma verdade que esconde outra verdade. Cem anos de Solidão, espaço-tempo mítico, cronotopos, cujo caráter simultâneo e renovável; onde o passado se repete no presente e o futuro pode ser previsível porque de alguma maneira já ocorreu, em que tudo será esclarecido no final quando saberemos que toda a história de Macondo já estava escrita cem anos antes pelo cigano Melquíades, autor-narrador e personagem, que acompanhou Macondo em sua fundação. “O tempo em Macondo não existe, está congelado”.
Em Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez mostra como Cervantes “as fronteiras da realidade dentro de um livro e as fronteiras de um livro dentro da realidade”

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Ponciá Vicêncio


O romance Ponciá Vicêncio da escritora Conceição Evaristo, conta a historia, as aventuras e as angustias de Ponciá Vicêncio desde sua infância quando ainda menina no povoado onde nasceu; suas brincadeiras como as bonecas de espiga de milho, o arco-íris e as primeiras e poucas lembranças que Ponciá tinha do seu avô, o “vô” Vicêncio.
Nesse romance de Evaristo encontramos a importância dos estreitos laços de família que une Ponciá Vicêncio, o irmão Luandi e sua mãe em um ato desesperado de encontros, desencontros e despedidas. Na trama muito bem traçada pela autora, os laços familiares são de muita importância, Ponciá e sua mãe que desde muito tempo trabalhavam o barro, elas faziam panelas, potes e bichinhos de barro, e Ponciá quando menina se encarregava de buscar a argila na margem do rio, para fazer os objetos que vendiam em outros lugares, o irmão que desde muito jovem trabalhava com o pai, geralmente um pouco ausente da presença da família por força do seu trabalho, dão a esse romance um sentido de pura saudade.
As lembranças do avô Vicêncio que andava com um braço escondido às costas, porque era cotó, e que ela própria saia exatamente com o mesmo jeito de andar como se fosse cotó como o avô Vicêncio. O romance nos conta a primeira sensação de prazer da nossa protagonista quando tinha apenas 11 anos e de uma maneira inteiramente sua.
Entre despedidas e sofrimento Conceição Evaristo nos convida a um maravilhoso passeio pelas lembranças de Ponciá onde vai traçando o destino e as angustias da protagonista e de seus familiares. A autora nos mostra uma personagem que era chegada a “olhar o vazio”. Ponciá via tudo, via o próprio vazio, “sentia-se como estivesse chamando outra pessoa. Um dia cansada de tudo e querendo viver uma vida melhor, Ponciá deixa o campo e vai fazer o seu destino, querendo inventar a sua própria vida.
Tudo em Ponciá Vicêncio é lembrança, lembrança da mãe, do irmão, do pai, já falecido, do funeral do avô e das cantigas que entoava junto com a mão na hora de amassar o barro, eram canções que os negros mais velhos cantavam para os mais jovens, lá na África e eram cantadas de uma maneira que não se entendia, talvez estivesse em crioulo. A pesar das lembranças e do ato de recordar havia em Ponciá um extremo vazio na sua cabeça, diziam que ela, como o avô Vicêncio gostava de olhar o vazio. Conceição Evaristo nos mostra todo o tempo que em Ponciá Vicêncio o processo de lembrar às vezes era um processo doloroso que chegava a ser uma total profunda ausência de si mesma.
As lembranças e recordações de Ponciá chegam a tocar os limites do mito, principalmente o mito da terra de origem. A velha Nêgua Kainda, que tudo via e tudo sabia, a herança do avô Vicêncio,  a visão da África e do sofrimento daqueles que de lá saíram, e pensam um dia regressar. Parece que tudo aquilo que viveu e todas as lembranças de Ponciá a levavam ao começo, ao tempo passado, ao tempo das origens, onde os negros eram felizes, e não sentiam medo, escravidão e sofrimento.
O romance “Ponciá Vicêncio mostra praticamente todo tempo, que a vida das personagens é marcada pela lembrança de um ante-feliz, de um passado inteiramente ligado ao presente por meio da memória. Nós leitores somos guiados por essas lembranças e memórias que nos conectam através da memória de Ponciá Vicncio com o passado. No romance, passado e presente são inteiramente ligados pelas memórias e pelas lembranças das personagens.
Ponciá Vicêncio enxergava a vida através da memória, lembrava varias vezes as mesmas historias como se fosse à primeira vez, como se fosse preciso completar as suas lembranças fragmentadas pelo vazio, sentia o mundo ao redor, mas não se situava nele, parecia dona das sombras, parecia  que estava em outro mundo, era um vazio, mas que era só dela. Ponciá precisa recuperar os pedaços do seu passado para viver o seu presente, é preciso saber reconstruir e recontar a história de nós mesmos, porque a historia é feita por nós.
As memórias e as lembranças de Ponciá são o elo entre o passado, o presente, o vazio e às vezes a ausência de si mesma; seria a ruptura, o hiato criado pelos sofrimentos sentidos por várias gerações de negros. O romance de Conceição Evaristo “Ponciá Vicêncio” mistura: idas e vindas, tristeza, frustrações, memórias, pobreza, miséria, lágrimas, amores, desilusão, todos amarrados pelas lembranças das personagens que vão prendendo o leitor até o fim.
“Ponciá Vicêncio é o elo, é a herança do passado e do presente e do que ainda há de vir.


Referência Bibliográfica:

Ponciá Vicêncio – 2° Ed. Evaristo, Conceição – Belo Horizonte: Mazza Edições, 2005. 132 pag.

Conceição Evaristo nasceu em 1946, em uma favela no Alto da avenida Afonso Pena, Belo Horizonte.

Biografia:

Romance

  • Ponciá Vicêncio (2003)
  • Becos da Memória (2006)

Poesia

  • Poemas da recordação e outros movimentos (2008)

Contos

  • Insubmissas lágrimas de mulheres (Nandyala, 2011)

Participações em antologias

  • Cadernos Negros (Quilombhoje, 1990)
  • Contos Afros (Quilombhoje)
  • Contos do mar sem fim (Editora Pallas)
  • Questão de Pele (Língua Geral)
  • Schwarze prosa (Alemanha, 1993)
  • Moving beyond boundaries: international dimension of black women’s writing (1995)
  • Women righting – Afro-brazilian Women’s Short Fiction (Inglaterra, 2005)
  • Finally Us: contemporary black brazilian women writers (1995)
  • Callaloo, vols. 18 e 30 (1995, 2008)
  • Fourteen female voices from Brazil (EUA, 2002), Estados Unidos
  • Chimurenga People (África do Sul, 2007)
  • Brasil-África: como se o mar fosse mentira (Brasil/Angola, 2006)




sexta-feira, 6 de julho de 2012

O Barroco Brasileiro: a poesia de Gregório de Matos




Soneto
Pequei, Senhor: mas não porque hei pecado,
Da vossa Alta Piedade me despido;
antes, quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
(Gregório de Mattos -Do livro: "Livro dos Sonetos", LP&M Editores, 1996, RS)

O Barroco no Brasil

No século XVII, o Brasil presenciou o surgimento de uma literatura própia a partir dos escritos nascidos na colônia, quando as primeiras manifestações valorizando a terra surgiram.
A produção literária não foi favorecida nesse período, pois a disputa pelo poder no Brasil era evidente e chamava toda a atenção.
“No Brasil houve ecos do Barroco europeu durante os séculos XVII e XVIII: Gregório de Matos, Botellho de Oliveira, Frei Itaparica e as primeiras academias repetiram motivos e formas do barroquismo ibérico e italiano.”
“Na segunda metade do século XVIII, porém o ciclo do ouro já daria um susbstrato material à arquitetura, à escultura e à vida musical, de sorte que parece lícito falar de um Barroco brasileiro, e até mesmo mineiro, cujos exemplos  mais significaticos foram alguns trabalhos do Aleijadinho, de Manuel da Costa Ataíde e composições sacras de Lobo de Mesquita, Marcos Coelho e outros...” (BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira - São Paulo: Editora Cultrix, 1994.)

Para o escritor  e crítico Antonio Candido, a literatura que não apresenta esses elementos consolidados (obra-público-autor) não é capaz de formar um sistema e, por isso, não passaria de manifestação literária. Sendo assim, autores como Antônio Vieira e Gregório de Matos não são considerados pelo crítico como representantes da literatura brasileira, pois não contribuíram para sua formação ao não influenciarem outros autores e por escreverem em um período literário em que os três elementos constituintes capazes de instituírem um sistema literário ainda eram incipientes. (CÂNDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos. 6 ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1981)

A Sociedade colonial
O Barroco aparece no Brasil  quando ya se haviam passado cerca de cem anos de presença colonizadora no território; a população já se multiplicava nas primeiras vilas e alguma cultura nativa já lançara sementes.  O Barroco não foi, assim o veículo inaugural da cultura brasileira, mas floresceu ao longo da maior parte de sua curta historia de 500 anos, num período em que os residentes lutavam por estabelecer uma economia auto-sustentável, contra uma natureza selvagem e povos indígenas nem sempre amigáveis, até onde permitisse sua condição de colonia pesadamente explorada pela metrópole. O território conquistado se expandia em passos largos para o interior do continente, a população de origem lusa ainda mal enraizada no litoral estava em constante estado de alerta contra os ataques de indios pelo interior e piratas por mar, e nesta sociedade em trabalhos de fundação se instaurou a escravatura como base da força produtiva.

Principais característica do Barroco brasileiro

  • Culto exagerado da obra, sobrecarregando a poesia de figuras de linguagem.
  • Dualismo: onde o poeta se sente dividido e confuso por causa do dualismo de ideias.
  • Culto do Contraste, conflito entre o bem e o mal, o Ceú e Inferno, Deus e o diabo, o material e o espiritual, o pecado e o perdão...
  • Pessimismo, que era acarretado pela confusão causada pelo dualismo.
  • Literatura moralista, já que era usada pelos padres jesuítas para pregar a fé e a religião.
  • O Barroco revela a busca da novidade e da surpresa, o gosto da dificuldade.

“É de esperar que os recursos dessa visão de mundo sejam, na poesia, as figuras: sonoras (aliteração, assonância, eco, onomatopeia...), sintáticas (elipse, inversão, anacoluto, silepse...) e sobretudo semânticas (metáfora, metonímia, sinédoque, antítese, clímax...), enfim todos os processos que reorganizam a linguagem comum em função de uma nova realidade: a obra, o texto, a composição”.

Gregório de Matos: entre o céu e o inferno
Gregório de Matos guerra nasceu na Bahia em 1633 e morreu em Recife em 1696. Cultivou a poesia lírica, sátirica e religiosa. Sua obra só foi divulgada muito tempo depois de sua morte
As obras de Gregório de Matos, revelan nítidas influências dos poetas Barrocos espanhóis, sobretudo nas composições líricas. Seus textos sátiricos são muito interessantes, também pelo caráter documental que apresentam, tanto do ponto de vista sociológico quanto linguístico, pois neles o autor utilizou uma linguagem bem popular, onde são frequentes, inclusive, termos de baixo calão. Por sua crítica ferina e debochada da sociedad da época, recebeu o apelido de “Boca do Inferno”.
Gregório de Matos tinha  formação humanística – doutor in utroque jure – pela Universidade de Coimbra. “Mazelas e azares tangeram-no de Lisboa para Bahia quando já se abeirava dos cinquenta anos; más entre nós não perdeu, antes espicaçou o vezo de satirizar os desafetos pessoais e políticos, motivo de sua deportação para Angola de onde voltou, um ano antes de morrer, indo para o Recife que foi a sua última morada”.

Vida e obra

Gregório de Matos tinha um genio irrequieto e zombeteiro, desde cedo revelara viviacidade de inteligência e volubilidade de caráter. Eis porque quando contava com apenas 14 anos, seus pais resolveram mandar-lo para Coimbra: era para ali que, do Brasil, naquela época, as famílias ricas mandavam seus filhos quando lhes queriam dar uma instrução superior para, ao término de uns tantos anos, de lá voltarem com título científico que lhes garantissem, aqui, na sociedade brasileira, uma posição de relevo.
Gregório, porém, bacharel em direito, não quis regressar logo ao Brasil. De Coimbra passou para Lisboa, onde se formou advogado e, mais tarde, juiz. Ali permaneceu, mais ou menos, até os 50 anos. Só então voltou ao Brasil, um tanto o quanto desiludido da sociedade portuguesa, onde talvez por causa do seu genio independente e mordaz, sofreu muitas decepções e desgostos.
Chegado a Bahia, deu expansão à sua veia satírica, não poupava os poderosos, nem os “clientes”, nem os amigos, nem mesmo a própria esposa que, por esse motivo, certo dia, lhe abandonou. Por último, por atrair a ira do governador, este para se vingar dele, cujas sátiras, justas ou injustas, eram sempre aplaudidas pelo povo, deportou-o para Angola. Na Àfrica passou Gregório alguns anos de miséria, até que, arruinado de saúde, alcançou permissão de voltar ao Brasil, não mais para viver na Bahia, onde ainda, contra ele perdurava odios e resentimentos, mas para exercer em Pernambuco a sua profissão de advogado. Ali proibido de escrever sátiras e de continuar com seu genio maledicente e falaz, entregou-se de todo ao exercício de sua profissão, embora continuasse a viver como um boémio, sempre alegre, sempre zombeteiro, sempre despreocupado da vida.
Graças a tal mudança de meio e comportamento, o já velho poeta, após uma existência, tão agitada, conseguiu viver algum tempo tranquilamente, até que aos 73 anos de idade, a morte o alcançou em Recife, em 1696.
Gregorio de Matos Guerra foi enterrado com grandes honras na igreja dos Capuchinhos franceses de Nossa Senhora da Penha, em Pernambuco. As suas últimas poesias, escritas já com mão trémula, foram dois belos sonetos em que ele exprimia sincero arrependimento de todos os erros da sua vida.

A Crítica social

“A situação de intelectual branco não bastante privilegiado pelos maiores da terra ainda mais lhe pungia o amor-próprio e o levava a estiletar às cegas todas as classes da nova sociedade”:

"AOS SENHORES GOVERNADORES DO MUNDO EM SECO DA CIDADE DA BAHIA, E SEUS COSTUMES. "

A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar a cabana, e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.


Araripe Jr., que observou Gregório por uma lente tainiana, sempre à procura da faculdade dominante do escritor, viu com nitidez o seu fundo ressentimento para as desordens da Bahia dos fins do século, más atribuiu-o a singularidades de caráter
No forte e bem travado soneto “Triste Bahia”, Gregório se identifica com a sua terra espoliada pelo negociante de fora, o “sagaz Brichote”, e impreca a Deus que faça tornar o velho tempo da austeridade e da contensão:


Triste Bahia
Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
Do livro "História concisa da Literatura Brasileira", de Alfredo Bosi, Editora Cultrix, 1994, SP.
Afrânio Coutinho, em sua obra “Conceito de Literatura Brasileira”,defende o Barroco como movimento pertencente à literatura brasileira, identificando Gregório de Matos como o primeiro autor dessa literatura pelo seu sentimento nativista. Segundo o autor, "a brasilidade já se vinha constituindo, consolidando e libertando havia muito antes da fase de 1750 a 1836".
Buscando a Cristo

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

Gregório de Matos é considerado o maior poeta barroco brasileiro, sua obra permaneceu inédita por muito tempo, são obras ricas em sátiras, além de retratar a Bahia com bastante irreverência, o autor não foi indiferente à paixão humana e religiosa, à natureza e reflexão.
“Em toda sua poesia o achincalhe e a denuncia encorpam-se e movem-se à força de jogos sonoros, de rimas burlescas, de uma sintaxe apertada e ardida, de um léxico incisivo, quanto não retalhante; tudo ao que dá ao estilo de Gregório de Matos uma verve não igualada em toda a história da sátira brasileira posterior”.

BIBLIOGRAFIA:

CÂNDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos. 6 ed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1981.

BOSI, Alfredo. Do Antigo Estado à Máquina Mercante. In: ______. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira - São Paulo: Editora Cultrix, 1994.

CAMPOS, Haroldo de. O Seqüestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: O caso Gregório de Mattos. Salvador: Fundação Casa de Jorge